Desequilíbrio eletrostático

03/07/2005 19:24
As Fridas que foram “Kahladas” pela reportagem da Globo.
Sobre Frida eu não Kahlo.

Ana Carolina Abiahy carolabiahy@jornalonorte.com.br

Estou indignada com a matéria de sábado do Jornal Hoje da Globo, assinada pela competente comentarista de moda Cristina Franco. Competente no terreno das passarelas, mas sofrível ao tratar de artes plásticas. Em seu papel de correspondente internacional, ela divulgava uma exposição de 70 telas da pintora mexicana Frida Kahlo, em Londres. Trilhando o caminho fácil do biografismo, falou da vida de Frida e mostrou as telas para ilustrar.
A questão é que a jornalista reduziu a amplidão do talento de Frida Kahlo. No início e no final da matéria aparece a palavra “atormentada” como única forma de definir a artista. A jornalista taxou Frida de deficiente física e disse que ela começou a pintar porque ficou presa na cama. Acometida de pólio desde a infância, Frida mancava da perna direita, fato mencionado pela jornalista, bem como o grave acidente de ônibus que comprometeu a mesma perna, o quadril, a coluna e o ventre de Frida.
A diferença é que a jornalista acreditou que tais limites limitaram a artista à tristeza, depressão e melancolia (e aqui a redundância é proposital, já que a limitação de visão de Cristina Franco é que pareceu limitar a recepção dos telespectadores). No caminho contrário, Frida buscou a superação, sendo uma mulher atraente em seu tempo, com visível auto-estima, como se vê na farta documentação iconográfica deixada por ela. Mais do que isso, toda a trajetória de Frida mostra que ela busca a Vida, com V maiúsculo para frisar o vigor, bem longe da simples lamentação que parece impregnar a matéria de tv.
O filme Frida de Selma Hayke, que também não chega a retratar a grandeza dela como artista, mas é satisfatório no quesito biográfico, relata isso. Ao invés de buscar ficar presa na cama, como a jornalista deu impressão, Frida fez seguidas cirurgias para corrigir o problema de locomoção. As telas mostradas na reportagem se atêm a esse período. Vê-se sim muita tragédia porque as tais cirurgias deram errado. Não é mencionado sequer que a artista engravidou mais de uma vez, tentando gerar vida, mesmo sabendo que isso só agravaria seu problema de saúde. Menciono o fato porque o quadro em que Frida “conta” essa história, a esperança de descendência e prolongamento da vida, corroída pelos inevitáveis abortos, foi mostrado como “ilustração” para a reportagem.
Como jornalista, sei que a linguagem da tevê é condensada, mas quando se trata de tentar divulgar, difundir a cultura e, em particular, um talento de tanta amplidão, acho que o jornalismo não pode ser mesquinho. Várias Fridas foram deixadas de lado e a reportagem escolheu o caminho fácil de provocar comiseração no espectador. Não é por pena que alguém deve ir a uma exposição de Frida Kahlo e sim para aplaudir com os olhos o seu talento.
Na reportagem, não aparece nenhuma referência ao ardor que a pintora tinha pela política e a defesa da cultura mexicana, bandeiras carregadas por Frida ao longo da vida. Cristina Franco diz que Frida escolheu usar as roupas “típicas” mexicanas, de ascendência indígena, para demonstrar a paixão que tinha pelo pintor Diego Rivera. Confesso que não entendi. Era para ficar mais bonita e agradar o marido? Com certeza, ela devia buscar a beleza, pois que exalava feminilidade mesmo com traços andróginos. Mas entende-se melhor a adoção de Frida pelos trajes de seu povo como um manifesto em defesa da cultura local, já tão ameaçada pelo gigante vizinho USA.
Notável que a reportagem não trouxe para a tv as telas que Frida pintou durante a estadia nos USA acompanhando o trabalho de Rivera. Elas mostram o sufocamento dos grandes prédios que começavam a surgir para o cenário do american way of life, o dinheiro esmagando liberdades. Os quadros mostram sua alma lutando contra isso e buscando as raízes da cultura latino-americana. Há muitos trabalhos de Frida sobre os bichos, plantas, frutas da região. Cores, alegria, vigor e não só sangue como foi mostrado. E mesmo o sangue tem que ser compreendido como batalha, luta, “as veias abertas da América Latina”, para lembrar o uruguaio Eduardo Galeano.
É bem mais fácil reduzir o relacionamento amoroso de Frida e Rivera a uma trama de novela, dizendo que acabou em meio a traições de ambos. Será que todos vivem o romance dentro da moral burguesa? A matéria lembra a traição que devastou Frida: sua própria irmã com Diego. Mas, chega a dizer que Frida teve paixão intensa por Trotski, figura tão emblemática não poderia deixar de ser mencionada. Mas, Frida em seus diários considerava um flerte e destaca as divergências políticas como maiores que o sentimento. A matéria cita que Frida e Rivera voltaram, esperamos que o telespectador entenda como um recado de que a intensidade do amor não esmorece quando se luta por isso. Como Frida fez ao longo de sua trajetória, que pode ser vista como uma busca pela intensidade da Vida, na natureza, nas lutas do povo, no corpo, na alma e na arte.

enviada por ana e sheylla






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